Análise · Revisão por pares
Viés na revisão por pares: prestígio, gênero e double blind
· Nathalia Yamakawa
Viés na revisão por pares: o que os estudos mostram sobre prestígio e gênero, os limites do double blind e os cuidados da comissão científica.
Em resumo
Ocultar a autoria pode reduzir a influência do prestígio e, em parte dos estudos, do gênero. Esse cuidado começa no convite ao parecerista. Cabe à comissão definir as regras e acompanhar a composição do grupo de pareceristas, as recusas, os critérios aplicados e o tempo de cada etapa.
Um artigo escrito por um ganhador do Nobel e um pesquisador em início de carreira foi enviado a diferentes grupos de pareceristas. O texto era o mesmo. Mudava apenas a autoria exibida: o nome do Nobel, o do pesquisador iniciante ou nenhum dos dois. As recomendações de rejeição variaram de 23% a 65%.3
A revisão double blind (duplo-cega), em que as identidades de autores e pareceristas são ocultadas entre si, pode reduzir a influência do prestígio. Esse cuidado precisa começar no convite ao parecerista. Ainda assim, ocultar nomes não garante uma avaliação imparcial: a comissão precisa ampliar a seleção de pareceristas, definir critérios e acompanhar divergências e prazos.
Quanto o prestígio pesa no parecer
No experimento, mais de 3.300 pesquisadores receberam convites. Entre os que aceitaram revisar sem conhecer a autoria e só depois receberam o artigo, as recomendações foram estas:3
| Autoria exibida no artigo | Recomendaram rejeição |
|---|---|
| Ganhador do Nobel | 23% |
| Nenhum nome | 48% |
| Pesquisador em início de carreira | 65% |
O nome pesou antes mesmo do parecer. Entre os pesquisadores que responderam ao convite, 38,5% aceitaram revisar quando o convite mostrava o ganhador do Nobel; com o convite anônimo, 30,7%; com o nome do pesquisador iniciante, 28,5%.3 O prestígio muda quem se dispõe a avaliar, e não só como avalia.
Há evidência também em conferências. No WSDM 2017 (ACM International Conference on Web Search and Data Mining), cada submissão recebeu pareceres de revisores que viam a autoria e de revisores que não a viam. Os primeiros foram mais propensos a recomendar trabalhos de autores famosos e de instituições de prestígio.2
Esses estudos sustentam o uso do anonimato para reduzir a influência do prestígio. A literatura mais ampla, porém, pede cuidado na leitura: uma síntese sobre viés na revisão por pares destaca limitações de método e de dados que dificultam medir sua presença e intensidade.1 Por isso, importa o que cada estudo mediu.
Gênero: o resultado depende da pergunta
Um estudo com 145 periódicos de várias áreas, com cerca de 1,7 milhão de autores, acompanhou três etapas: a escolha dos pareceristas pelo editor, as recomendações dos pareceristas e a decisão editorial. Não encontrou desvantagem para trabalhos de autoras; no conjunto, eles foram tratados de forma ligeiramente mais favorável, com diferenças entre áreas.4
Em seis periódicos de ecologia e evolução, o quadro foi outro: trabalhos com mulheres como primeiras autoras receberam notas ligeiramente piores e foram mais rejeitados após a revisão. O tamanho da diferença variou entre os periódicos, e os dados não permitiram estabelecer o mecanismo responsável.5
Esses estudos perguntam como os trabalhos de autoras são tratados. Outros perguntam quem é chamado para avaliar, e o quadro muda.
Quem recebe os convites
Nos periódicos da Frontiers, editores de ambos os gêneros preferiram pareceristas do próprio gênero.6 Nos periódicos da American Geophysical Union, mulheres receberam menos convites para revisar do que sua participação entre os autores faria esperar, e recusaram mais os convites que receberam.7
Ocultar a autoria das submissões não amplia, por si só, a lista de pessoas convidadas. A comissão precisa examinar como seleciona os pareceristas e quais redes de pesquisa estão representadas.
O que se exige dos artigos
Na economia, Card e colegas compararam artigos com notas dos pareceristas e características observáveis semelhantes. Os escritos só por mulheres receberam cerca de 25% mais citações do que os escritos só por homens. Os autores interpretam essa diferença como indício de um padrão de exigência mais alto para as mulheres. O gênero do parecerista não alterou a avaliação relativa dos trabalhos.8
Hengel examinou outro aspecto: na Econometrica e na Review of Economic Studies, artigos de autoria feminina que acabaram aceitos passaram, em média, de três a seis meses a mais entre a submissão e o aceite do que trabalhos masculinos com características observáveis semelhantes.9 Card e colegas não encontraram diferença no tempo de entrega dos pareceres nem no prazo da decisão editorial.8 Os estudos analisam amostras e intervalos diferentes. Esses resultados não permitem localizar, por si só, a origem da diferença. Para a comissão, a implicação prática é registrar o tempo de cada etapa.
O anonimato pode ajudar também aqui, mas a evidência é fraca: Hengel encontrou, em uma amostra pequena de artigos avaliados em double blind, uma inversão da diferença de legibilidade, sem significância estatística.9 Até que haja evidência melhor, a comissão não deve contar com o anonimato para resolver o padrão de exigência e o tempo de avaliação. Precisa medi-los.
O double blind ajuda as autoras?
Um estudo de 2008 associou a adoção do double blind na Behavioral Ecology ao aumento da proporção de primeiras autoras.10 Uma reanálise mostrou que aumento semelhante ocorreu, no mesmo período, em periódicos da área que mantiveram o single blind, formato em que o parecerista vê a autoria. A mudança de formato não explicava a diferença.11 Um levantamento posterior, com os artigos publicados entre 2010 e 2018, também não encontrou mais autorias femininas na Behavioral Ecology do que em quatro periódicos semelhantes com single blind.16
Uma revisão sistemática de 2022 reuniu oito estudos: quatro encontraram diferenças associadas ao gênero percebido da autoria e quatro não. Os autores consideraram os resultados mistos, mas concluíram haver evidência razoável de que o viés de gênero pode existir e de que o double blind pode mitigá-lo.13
Boa parte dessa literatura vem de periódicos, com prazos e volumes diferentes dos de um congresso. Mesmo assim, o padrão se repete o bastante para orientar a comissão: o nome visível é uma fonte de viés, e não é a única.
O que a revisão aberta permite examinar
Na revisão aberta, a comissão combina práticas como identificar pareceristas, publicar pareceres ou abrir espaço para contribuições da comunidade. Uma revisão sistemática reuniu 122 formulações do termo em 22 configurações distintas.12 É possível, por exemplo, publicar os pareceres preservando a identidade de quem revisou.
Tornar os pareceres públicos permite examinar os argumentos e os critérios utilizados. Assiná-los favorece a responsabilização, mas também traz preocupações com retaliação e liberdade de crítica.15 Os estudos discutidos na revisão sistemática não mostram um ganho consistente de qualidade só por abrir o processo.12
A comissão precisa definir o que será público, em que momento e com quais cuidados de confidencialidade. O guia dos tipos de revisão por pares compara os formatos lado a lado.
Cinco cuidados para a comissão científica
As diretrizes do COPE (Committee on Publication Ethics) orientam os pareceristas a declarar conflitos de interesse, preservar a confidencialidade e escrever pareceres objetivos e construtivos, sem discriminar os autores.14 Cabe à organização do congresso criar as condições para que essas orientações sejam cumpridas. Em um congresso, isso acontece em rodada única ou com uma rodada de correções, com pareceristas voluntários e centenas de trabalhos no mesmo prazo.
- Mantenha o anonimato que o edital promete. Se o formato pede autoria oculta, confira texto, metadados, arquivos e o conteúdo dos convites antes da distribuição. O guia de double blind na prática traz o checklist completo.
- Convide além da rede da comissão. Monte a lista de pareceristas com indicações de mais de uma pessoa, por área e por região. Acompanhe quem recusa, quem recebe convites repetidos e onde há sobrecarga. Para comparar a composição da banca com a dos autores, a comissão precisa de dados como gênero, região e instituição. Se decidir coletá-los, peça de forma opcional, explique a finalidade e mantenha esses dados fora da tela do parecerista.
- Separe os tempos de cada etapa. Meça a espera pela distribuição, pelo parecer e, se houver, pela rodada de correções. Assim a comissão sabe onde está o atraso e quem precisa agir.
- Defina antes o que fazer com pareceres divergentes. Combine o significado de cada critério e uma regra de desempate: recomendações opostas ou uma diferença grande de nota abrem um terceiro parecer, por exemplo. Notas muito diferentes das demais merecem revisão dos critérios e dos pareceres. A média isolada não demonstra rigor excessivo: cada parecerista pode receber trabalhos de áreas e qualidade distintas.
- Registre conflitos e decisões. Defina como declarar conflitos de interesse e quando redistribuir um trabalho. Registre o motivo de cada decisão, sobretudo quando a comissão contrariar os pareceres.
Ao comparar resultados entre grupos, considere área, tipo de trabalho e número de submissões. Uma diferença indica algo a investigar, mas não prova viés por si só. Os registros permitem voltar aos casos e entender o que aconteceu.
Como sustentar esses cuidados na operação
Uma planilha bem mantida dá conta desses registros em um evento pequeno. Com centenas de trabalhos, a comissão precisa atualizar os dados, controlar quem vê o quê e consultar o histórico sem depender da memória de uma pessoa.
Na Galoá, a comissão configura critérios, pesos e limites de distribuição, acompanha prazos e registra conflitos de interesse. Convites e lembretes automáticos ajudam a manter o processo em andamento. O julgamento científico e a decisão final continuam com a comissão. Conheça a gestão da revisão por pares em congressos.
O reconhecimento de quem revisa também faz parte desse processo. Como membro institucional do ORCID, a Galoá registra a atividade de revisão no perfil do pesquisador, com autorização dele, inclusive quando a revisão é anônima. Veja como funciona o registro no ORCID.
Antes de abrir a chamada de trabalhos, a comissão deve sair da reunião com os critérios definidos, um responsável por etapa e a lista do que será registrado. Com isso, consegue conferir se o processo anunciado no edital está sendo cumprido. Para continuar, o hub de revisão por pares reúne os guias e o diagnóstico que mostra onde o anonimato do seu processo pode vazar.
Perguntas frequentes
Se o congresso já usa double blind, onde o viés ainda pode entrar?
Na seleção dos pareceristas, nos critérios aplicados e nas decisões sobre os trabalhos. O anonimato deve começar no convite: revelar a autoria nessa etapa pode influenciar quem aceita revisar. Mesmo com nomes ocultos, a comissão precisa acompanhar recusas, divergências entre pareceres e o tempo de cada etapa.
Existe viés de gênero na revisão por pares?
Há estudos que encontram diferenças desfavoráveis às autoras, outros que não encontram diferença e alguns que encontram tratamento ligeiramente mais favorável a elas. Os resultados variam por área, periódico e etapa: convites para revisar, exigências de revisão e decisões editoriais respondem a perguntas diferentes. Uma revisão sistemática de 2022 encontrou resultados mistos, mas concluiu haver evidência razoável de que o viés de gênero pode existir e de que o double blind pode mitigá-lo.
Como uma comissão científica pode acompanhar o viés na revisão por pares?
Registre os convites e as recusas, a distribuição dos trabalhos, o tempo em cada etapa, os conflitos de interesse e as divergências entre pareceres. Compare trabalhos de áreas e condições semelhantes. Diferenças entre grupos ajudam a identificar o que investigar, mas não demonstram viés por si só.
O que é revisão aberta (open peer review)?
É um conjunto de práticas que podem ser combinadas, como identificar os pareceristas, publicar os pareceres ou abrir a participação à comunidade. Publicar um parecer não exige revelar quem o escreveu. Ao escolher essas práticas, a comissão deve definir o que ficará público e como proteger a confidencialidade e a liberdade de crítica.
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Falar com a GaloáReferências
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