Pesquisa básica e pesquisa aplicada: o que são e suas importâncias
· Fabiano Sant'Ana
Atualizado em
Pesquisa básica amplia o conhecimento sem aplicação prevista; a aplicada resolve um problema específico. Diferenças em tabela, exemplos e Quadrante de Pasteur.
Em resumo
Pesquisa básica (ou fundamental) é a que busca ampliar o conhecimento sobre um fenômeno, sem uma aplicação prevista; pesquisa aplicada é a que usa esse conhecimento para resolver um problema específico, com um uso prático em vista. Uma depende da outra: sem a básica não há base para a aplicada, e sem a aplicada as descobertas demoram a chegar à sociedade.
Para quem acabou de começar ou pretende iniciar sua carreira científica, o universo acadêmico pode parecer um pouco confuso e cheio de regras, além dos termos técnicos que são familiares para os pesquisadores com mais experiência.
Mas não é necessário esperar o tempo passar para compreender alguns termos, por isso que hoje vamos falar sobre as diferenças entre a pesquisa básica e a pesquisa aplicada e quais são suas importâncias para o desenvolvimento da sociedade.
O que é pesquisa básica?
Pesquisa básica, ou fundamental, é a investigação que busca ampliar o conhecimento sobre fenômenos, sem um uso prático específico em vista. Antonio Carlos Gil chama essa finalidade de pesquisa pura: o objetivo é desenvolver o conhecimento científico, sem preocupação direta com aplicações práticas (Métodos e técnicas de pesquisa social, 6ª edição, 2008, p. 26-27).5
O que é pesquisa aplicada?
Pesquisa aplicada é a investigação original dirigida a um objetivo prático específico. Ela produz conhecimento para enfrentar um problema definido e pode contribuir para novos métodos e tecnologias.1
Qual é a diferença entre pesquisa básica e pesquisa aplicada?
A diferença está na finalidade: a básica procura compreender fenômenos; a aplicada busca conhecimento para um uso prático definido. A classificação não depende apenas de quem financia o projeto ou do formato do resultado.
O Manual de Frascati, referência internacional para classificar atividades de pesquisa e desenvolvimento, define a pesquisa básica como o trabalho experimental ou teórico feito principalmente para adquirir conhecimento novo sobre os fundamentos de fenômenos e fatos observáveis, sem uma aplicação ou uso particular em vista; e a pesquisa aplicada como a investigação original feita para adquirir conhecimento novo dirigido a um objetivo prático específico.1 A tabela resume as diferenças. Em telas pequenas, deslize para ver as demais colunas.
| Critério | Pesquisa básica | Pesquisa aplicada |
|---|---|---|
| Objetivo | Ampliar o conhecimento sobre um fenômeno, sem aplicação prevista | Resolver um problema ou atender a uma necessidade específica, com uso prático em vista |
| Pergunta típica | Como isso funciona? Por que ocorre? | Como resolver este problema? Isso funciona na prática? |
| Produto | Teorias, modelos, dados e artigos que alimentam outras pesquisas | Métodos, tecnologias, protótipos, patentes e produtos |
| Quem costuma financiar | Agências públicas de fomento (CNPq, CAPES, FAPs) e universidades | Empresas, agências de inovação, editais de P&D e parcerias universidade-empresa |
| Exemplo | Maxwell e Hertz sobre ondas eletromagnéticas; Bohr sobre a estrutura do átomo | O rádio de Marconi; o GPS, baseado na relatividade; a pasteurização |
Por que a pesquisa básica é importante mesmo sem aplicação imediata?
Porque amplia a base de conhecimento que outras pesquisas podem utilizar, inclusive para aplicações ainda não previstas. O valor de uma descoberta não se limita aos produtos que ela permite desenvolver no momento em que é feita.
Em alguns casos, muitas teorias levantadas pelas pesquisas básicas demoram para ser aplicadas em soluções práticas. Mesmo assim, elas possuem grande importância para a sociedade, como opina o professor Oswaldo Lopes do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, “a ciência básica é vital para a prosperidade, quer econômica quer social e deve ser cultivada não apenas pela glória do intelecto”.2
Uma depende da outra, a pesquisa aplicada não acontece sem os conhecimentos da pesquisa básica, da mesma forma, sem a pesquisa aplicada estagnamos no tempo e não nos desenvolvemos. Isso tudo é parte da mesma cadeia, como colocou a biomédica e ex-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso a Ciência (SBPC), Helena Nader, em entrevista para a Agência Fapesp:
“A pesquisa científica básica é condição para o desenvolvimento. É um elo fundamental de uma cadeia que começa na formação do indivíduo e beneficia a sociedade toda.“ Helena Bonciani Nader, SBPC
Para ilustrar um pouco mais a dependência entre esses dois tipos de pesquisa, o jornalista Fabrício Marques escreveu na matéria publicada em agosto de 2016 na revista Pesquisa FAPESP, sobre a invenção do rádio pelo físico italiano Guglielmo Marconi.3 O inventor utilizou pesquisas de diversos cientistas como James Clerk Maxwell, Nikola Tesla e Heinrich Hertz para desenvolver a tecnologia necessária para a invenção do rádio que revolucionou a forma como nos comunicamos hoje.
Outro exemplo é a teoria da relatividade de Einstein, que mais tarde foi utilizada no desenvolvimento do GPS, ou os estudos de Niels Bohr sobre a estrutura do átomo que levou as pesquisas de tecnologias nucleares. Há também as descobertas de Louis Pasteur, considerado pai da microbiologia, suas pesquisas tiveram impactos positivos na indústria alimentícia com a invenção da pasteurização, método que elimina as bactérias de produtos alimentícios permitindo que durem mais.
O que é o Quadrante de Pasteur?
É a proposta de Donald Stokes para reconhecer pesquisas que buscam compreender fenômenos e, ao mesmo tempo, atender a necessidades práticas. Os estudos de Pasteur ilustram essa combinação entre avanço do conhecimento e aplicação.4
Levando em consideração a aplicação prática das pesquisas de Pasteur, Donald E. Stokes propõe em seu livro “O quadrante de Pasteur: a ciência básica e a inovação tecnológica” uma nova forma de classificar pesquisas buscando ajudar o constante impasse entre o governo e cientistas na hora de definir o repasse de verbas.4

Imagem retirada de matéria da revista Pesquisa FAPESP
O quadro de Stokes analisa a relevância de uma pesquisa para o avanço do conhecimento e a sua relevância para aplicações imediatas. Do lado esquerdo estão as pesquisas que contribuem para o conhecimento, sendo que quanto mais para cima, maior sua contribuição. Quanto mais a direita uma pesquisa estiver, maior sua relevância para ser aplicada imediatamente.
Neste exemplo da revista Fapesp as pesquisas de Bohr são citadas como grandes contribuições para o avanço do conhecimento, enquanto pesquisas que não apresentam explicações sobre fenômenos (como estudos sobre aves) ficam na parte inferior. As pesquisas de Thomas Edison sobre eletricidade possuem muita relevância para aplicações imediatas e os trabalhos de Pasteur contribuem tanto para o avanço do conhecimento ao mesmo tempo que suas aplicações práticas foram imediatas.
Com a concepção desse quadrante, Stokes mostra uma solução para a briga entre governo e ciência está no fortalecimento e investimento em pesquisas fundamentais em campos que buscam solucionar problemas e necessidades da sociedade.
Por que investir em pesquisa básica e aplicada em tempos de crise?
Porque enfrentar problemas imediatos e formar capacidade científica para o futuro exige as duas frentes. A pesquisa aplicada contribui para objetivos práticos, enquanto a básica amplia o conhecimento que pode sustentar soluções futuras.
Tanto o investimento na pesquisa básica quanto aplicada são necessários, e no clima de cortes e reduções de verbas para universidades o debate acaba ficando ainda mais intenso. Em época de crise econômica o investimento em pesquisa e desenvolvimento é visto por muitos como “desperdício” quando na verdade é a melhor saída. Foi o que colocou o professor e presidente da Academia Brasileira de Ciência, Luiz Davidovich, em uma entrevista para o portal da BBC:
“Espanta-me que justamente em uma época de crise tão grave, não se dê atenção à porta de saída da crise, já descoberta por outros países há muito tempo. É pesquisa e desenvolvimento, é ciência e inovação tecnológica. Nós estamos indo na contramão dessa consciência internacional […] A China está com crescimento desacelerado, mas ao mesmo tempo está investindo mais em pesquisa. Em plena crise, o primeiro-ministro (Li Keqiang) anuncia que vai aumentar o investimento em pesquisa básica em 26%.” Prof. Luiz Davidovich, Universidade Federal do Rio de Janeiro
Apesar de suas diferenças, tanto a pesquisa básica quanto a aplicada são muito importantes e merecem atenção, por isso movimentos como a Marcha pela Ciência são importantes, para que toda a população entenda o que está em risco quando cortes na ciência são realizados sem considerar as consequências a longo prazo.
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Perguntas frequentes
Qual é a diferença entre pesquisa básica e pesquisa aplicada?
A diferença está na finalidade. A pesquisa básica quer entender como um fenômeno funciona e produz teorias, dados e artigos que alimentam outras pesquisas. A pesquisa aplicada parte de um problema concreto e produz métodos, tecnologias e protótipos. O método científico é o mesmo; o que muda é a pergunta de partida e o resultado esperado.
O que é pesquisa de natureza básica segundo Gil?
Em Métodos e técnicas de pesquisa social (6ª edição, 2008, p. 26-27), Antonio Carlos Gil distingue pesquisa pura e aplicada pela finalidade. A pura busca desenvolver o conhecimento científico sem preocupação direta com aplicações práticas; a aplicada se orienta ao uso do conhecimento em uma realidade específica.
Quais são exemplos de pesquisa básica e de pesquisa aplicada?
Os estudos de Maxwell e Hertz sobre as ondas eletromagnéticas e os de Bohr sobre a estrutura do átomo são exemplos de pesquisa básica. O rádio de Marconi, o GPS, que usa a teoria da relatividade, e a pasteurização são exemplos de pesquisa aplicada construída sobre esses conhecimentos. Uma vacina é outro caso comum: a pesquisa básica descreve o agente e a resposta imune; a aplicada desenvolve e testa o produto.
Uma pesquisa pode ser básica e aplicada ao mesmo tempo?
Pode. Donald Stokes chamou de Quadrante de Pasteur as pesquisas que avançam o conhecimento e, ao mesmo tempo, resolvem um problema prático, como os estudos de Pasteur sobre micro-organismos, que fundaram a microbiologia e deram origem à pasteurização. Classificar uma pesquisa como básica ou aplicada é uma questão de ênfase, não de exclusão.
Quem financia a pesquisa básica no Brasil?
No Brasil, o financiamento da pesquisa básica vem principalmente de recursos públicos: CNPq e CAPES, no âmbito federal, as Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs) estaduais, como a FAPESP, e as próprias universidades. Empresas e agências de inovação tendem a financiar pesquisa aplicada, com resultado de uso mais imediato, embora também haja programas de cooperação entre universidades e empresas.
Referências
- Organisation for Economic Co-operation and Development (OECD) (2015). Frascati Manual 2015: Guidelines for Collecting and Reporting Data on Research and Experimental Development. The Measurement of Scientific, Technological and Innovation Activities. https://doi.org/10.1787/9789264239012-en
- Lopes, O. U. (1991). Pesquisa básica versus pesquisa aplicada. Estudos Avançados. https://doi.org/10.1590/S0103-40141991000300015
- Marques, F. (2016). Os impactos do investimento. Pesquisa FAPESP. https://revistapesquisa.fapesp.br/os-impactos-do-investimento/
- Stokes, D. E. (1997). Pasteur's Quadrant: Basic Science and Technological Innovation. https://www.brookings.edu/books/pasteurs-quadrant/
- Gil, A. C. (2008). Métodos e técnicas de pesquisa social (6ª edição). https://biblioteca.ifrj.edu.br/cgi-bin/koha/opac-detail.pl?biblionumber=10944