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Guia · Avaliação de trabalhos

Critérios de avaliação de trabalhos científicos: o guia da comissão

· Galoá Ciência

Lemos os editais de 182 congressos. Veja o que encontramos e como montar uma ficha de avaliação para o seu evento.

Dois pareceristas leem o mesmo trabalho. Um devolve nota 9, o outro, nota 4. Para decidir, a comissão científica precisa entender o que sustenta cada parecer. Uma meta-análise de 48 estudos sobre revisão por pares, cobrindo mais de 19 mil manuscritos, encontrou concordância baixa entre avaliadores independentes do mesmo texto.1

Critérios de avaliação são a régua que a comissão entrega ao parecerista antes de ele começar a ler. Publicados no edital e refletidos no formulário, eles não acabam com a divergência entre pareceres, mas fazem essa divergência significar alguma coisa.

Por que definir critérios antes de a chamada abrir

Quando o edital diz apenas “os trabalhos serão avaliados pela comissão científica”, três problemas ficam contratados:

  • Notas incomparáveis. Sem um padrão comum, a nota 7 de um avaliador rigoroso vale menos que a nota 7 de um generoso, e a linha de corte mistura as duas como se fossem a mesma coisa.
  • Decisões difíceis de defender. O autor recusado pergunta por quê. Sem critérios publicados, a resposta honesta é “porque a média das notas não alcançou”, o que não explica nada.
  • Pareceres difíceis de interpretar. Sem critérios explícitos e justificativas, a comissão não sabe se a diferença de notas vem da avaliação do método, dos resultados ou de outro aspecto do trabalho.

No experimento do NeurIPS 2014, parte das submissões foi avaliada por dois comitês independentes. Os pareceristas receberam critérios explícitos e uma escala com descritores; ainda assim, metade da variação das notas foi estimada como subjetiva.2 O resultado mostra que o julgamento pode divergir mesmo com regras comuns. A rubrica ajuda a registrar o que cada parecerista avaliou e por que chegou àquela recomendação, para que a comissão possa examinar as diferenças.

Essa referência precisa chegar ao formulário. Critério que fica só no edital, enquanto o parecerista avalia num formulário genérico ou respondendo a um e-mail, perde sua função no processo. Na plataforma de submissão de trabalhos da Galoá, os formulários de avaliação são personalizados por área e trilha. A comissão pode levar os critérios publicados à ficha do parecerista e ter uma referência comum para examinar as divergências entre avaliações.

A maioria dos editais não escreve a régua

Em um levantamento da Galoá, realizado em julho de 2026, lemos os editais de 182 congressos brasileiros. Em 112 deles, três em cada cinco, o texto não diz por qual critério o trabalho será avaliado. Treze dizem quantos pareceristas leem cada submissão. Nove apresentam uma escala, uma ficha de avaliação ou descritores para orientar a decisão.

O que os editais descrevem com riqueza é o que o autor precisa entregar: limite de caracteres, template obrigatório, seções do resumo, prazo de ressubmissão. A orientação sobre o que será avaliado aparece com menos frequência. Quando essa informação está no edital, o autor sabe o que será julgado, e a comissão tem uma referência pública para justificar a decisão.

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Alguns editais chegam perto e param. O de um dos maiores encontros de ciências sociais do país diz que os trabalhos serão avaliados “de acordo com os critérios estabelecidos neste edital”, e o edital não estabelece nenhum. Outros dois trazem uma seção intitulada “Critérios de avaliação” sem nada escrito embaixo.

Entre os que declaram, os critérios mais citados são relevância, originalidade, adequação ao escopo, qualidade dos resultados e clareza. É praticamente a lista que a seção seguinte descreve, o que sugere que o problema não é falta de consenso sobre o que avaliar. É não escrever.

O que o edital precisa declarar

Não existe lista universal, e cada área calibra a sua. Estes cinco cobrem o essencial:

  • Aderência ao escopo. O trabalho pertence ao evento e ao eixo temático escolhido? É o filtro mais barato: aplicado na triagem, economiza parecer.
  • Originalidade da contribuição. O que o trabalho acrescenta ao que a área já sabe? Em congresso, vale calibrar a régua por modalidade: o esperado de um trabalho completo não é o esperado de um resumo de iniciação científica.
  • Rigor metodológico. O método sustenta as conclusões? É onde o parecerista da área certa faz diferença, e por isso a distribuição por eixo temático importa tanto.
  • Fundamentação dos resultados. Os dados apresentados dão suporte ao que o resumo afirma, ou as conclusões correm na frente da evidência?
  • Clareza da apresentação. O texto comunica? Ciência mal escrita é ciência que a sessão não aproveita.

A comissão pode acrescentar critérios próprios (relevância regional, potencial de aplicação, mérito interdisciplinar), desde que cada um seja publicado no edital e apareça no formulário do parecerista com o mesmo nome. E quando o congresso tem mais de uma modalidade, resumo, trabalho completo, pôster, cada uma pede o seu conjunto de critérios. Isso só se sustenta se a plataforma permitir um formulário por modalidade, em vez de obrigar a comissão a avaliar tudo com a mesma ficha.

Modelo de rubrica de avaliação de trabalhos científicos

Critério sem rubrica volta a ser opinião. A rubrica, que muitos eventos chamam de ficha de avaliação ou barema, é o que transforma a lista em instrumento:

  • Escala com descritores. Não basta “dê uma nota de 1 a 5”: diga o que significa cada ponto da escala em cada critério. Assim, os pareceristas têm uma referência comum para atribuir e justificar as notas.
  • Peso definido pela comissão. Se rigor metodológico vale mais que clareza no seu evento, isso é uma decisão científica, e deve estar na fórmula da nota, não no humor de cada avaliador.
  • Comentário por critério. O campo de texto obrigatório é o que vira devolutiva para o autor e justificativa para a decisão. A qualidade de um parecer é algo que a própria literatura já se organizou para medir,4 e intervenções no desenho do processo de revisão foram testadas justamente porque o formulário influencia o resultado.3
  • Recomendação separada da nota. Aceitar, aceitar com ajustes, recusar. A recomendação final força o parecerista a concluir, e dá à comissão um dado a mais que a média aritmética.

O modelo abaixo é uma proposta para trabalhos que apresentam objetivo, método, resultados e conclusão. A comissão pode copiar a estrutura para o formulário e adaptar os descritores à área e à modalidade antes de publicar a chamada.

Escala de notas e pesos

Use notas inteiras de 1 a 5 em cada critério: 1 — não atende; 2 — insuficiente; 3 — atende parcialmente; 4 — atende; 5 — atende plenamente. Os descritores a seguir traduzem esses níveis em aspectos que o parecerista deve observar no texto.

CritérioPeso sugerido
Aderência ao escopo15%
Originalidade da contribuição25%
Rigor metodológico30%
Fundamentação dos resultados20%
Clareza da apresentação10%
Total100%

1. Aderência ao escopo — peso de 15%

NotaDescritor
1O objetivo do trabalho não se relaciona com o escopo do evento.
2Menciona o tema do evento, mas o objetivo e a discussão se concentram em outra questão.
3O objetivo se relaciona com o escopo, mas parte relevante da discussão se afasta do eixo temático escolhido.
4O objetivo e a discussão se mantêm alinhados ao escopo e ao eixo temático escolhido.
5Além do alinhamento, explicita como a contribuição responde a uma questão central do eixo temático.

Se a aderência for um requisito eliminatório no edital, essa regra deve ser aplicada na triagem: uma boa média nos demais critérios não compensa um trabalho fora do escopo.

2. Originalidade da contribuição — peso de 25%

NotaDescritor
1Não identifica uma contribuição em relação ao conhecimento ou às práticas que apresenta.
2Afirma haver uma contribuição, mas não explica o que ela acrescenta ao que já se conhece.
3Identifica uma contribuição, mas a comparação com estudos ou práticas anteriores é incompleta.
4Explica o que acrescenta e situa a contribuição em relação a estudos ou práticas anteriores.
5Demonstra com clareza o que acrescenta e por que esse avanço é relevante para a questão investigada.

Originalidade não exige um tema inédito. Uma replicação, uma aplicação em outro contexto ou uma síntese pode receber nota alta quando o trabalho demonstra sua contribuição e ela é compatível com a modalidade.

3. Rigor metodológico — peso de 30%

NotaDescritor
1Não descreve o método, ou o procedimento apresentado não permite responder ao objetivo.
2Descreve parte do método, mas há lacunas ou inadequações que comprometem a análise.
3O método é compatível com o objetivo, mas faltam informações relevantes para avaliar sua execução.
4O método é adequado e os procedimentos estão descritos; restam lacunas pontuais de detalhamento.
5Justifica a escolha do método e descreve os procedimentos com detalhe suficiente para avaliar sua adequação, execução e limitações.

4. Fundamentação dos resultados — peso de 20%

NotaDescritor
1Apresenta conclusões sem resultados ou argumentos que as sustentem.
2Apresenta resultados, mas as conclusões vão além do que as evidências permitem afirmar.
3Sustenta parte das conclusões, mas deixa relações importantes entre evidências e interpretação sem explicação.
4Sustenta as conclusões principais, com pequenas lacunas na apresentação das evidências.
5Relaciona claramente evidências e conclusões e explicita os limites do que os resultados permitem afirmar.

5. Clareza da apresentação — peso de 10%

NotaDescritor
1A organização e a redação impedem compreender o objetivo, o percurso ou a conclusão.
2O sentido geral é identificável, mas há ambiguidades e falhas de organização que dificultam acompanhar o raciocínio.
3O raciocínio pode ser acompanhado, mas alguns trechos precisam de reorganização ou esclarecimento.
4O texto é claro e organizado, com ajustes pontuais de redação ou terminologia.
5O texto apresenta uma sequência lógica, usa termos precisos e comunica objetivo, percurso e conclusão sem ambiguidades relevantes.

Exemplo de cálculo da nota ponderada

Para cada critério, multiplique a nota pelo peso dividido por 100. Depois, some as parcelas: nota final = soma de [nota do critério × (peso ÷ 100)]. Como os pesos somam 100%, o resultado permanece na escala de 1 a 5.

Neste exemplo, um parecerista atribuiu as notas 4, 3, 4, 5 e 5:

Critério e pesoNotaParcela
Aderência ao escopo (15%)40,60
Originalidade da contribuição (25%)30,75
Rigor metodológico (30%)41,20
Fundamentação dos resultados (20%)51,00
Clareza da apresentação (10%)50,50
Total (100%)—4,05

O cálculo completo é: 0,60 + 0,75 + 1,20 + 1,00 + 0,50 = 4,05 de 5. Essa é a nota deste parecer, não uma aprovação automática. A comissão precisa definir no edital a nota de corte, a forma de combinar pareceres e os critérios de desempate, além de eventuais requisitos eliminatórios.

Campos que completam a ficha do parecerista

Além da nota, inclua um comentário obrigatório em cada critério, para o parecerista apontar o trecho ou a ausência de informação que sustenta sua avaliação e indicar o ajuste necessário, quando houver. Ao final, peça uma recomendação separada da nota: aceitar, aceitar com ajustes ou recusar, acompanhada de justificativa.

Para resumo simples, ajuste a exigência de detalhamento ao espaço disponível. Para modalidades que não apresentam resultados concluídos, substitua os critérios que não se aplicam. Faça essas adaptações antes de abrir a chamada e redistribua os pesos para manter o total em 100%; o parecerista não deve decidir sozinho quais critérios deixar de pontuar.

Montada a rubrica, ela precisa entrar no fluxo dos pareceristas. O ganho para a comissão é conseguir acompanhar a aplicação dos critérios sem reunir respostas espalhadas em planilhas e e-mails. Na Galoá, distribuição, prazos e rodadas de revisão ficam em um painel único, para que a coordenação identifique as pendências e concentre sua atenção nas decisões que exigem julgamento científico.

Além da rubrica, o parecerista precisa das regras do jogo: confidencialidade, prazo e declaração de conflito de interesse. As diretrizes éticas do COPE para pareceristas são a referência internacional para esse contrato,5 e valem para congresso tanto quanto para periódico.

Como a Galoá ajuda a comissão a aplicar os critérios

Definida a rubrica, a comissão precisa fazer cada trabalho chegar aos pareceristas, acompanhar prazos e conduzir as decisões. Na Galoá, a submissão e a gestão da revisão por pares fazem parte do mesmo fluxo. A plataforma ajuda desde o desenho da avaliação até o acompanhamento dos pareceres, com quatro ganhos práticos:

  • Uma biblioteca para desenhar e aprimorar a avaliação. A Galoá conta com uma biblioteca de formatos de avaliação já utilizados nos principais eventos das mais diversas áreas. Para quem está começando, ela ajuda a definir o que pedir aos pareceristas. Para comissões experientes, oferece um benchmark para comparar a própria ficha com práticas de outros congressos e aprimorar o processo.
  • Menos distribuição manual. A atribuição automática dos trabalhos aos pareceristas, organizada por área e trilha, reduz o trabalho de encaminhar submissões uma a uma. A comissão acompanha prazos e rodadas de revisão no painel.
  • Menos cobrança individual de pareceres. Convites e lembretes automáticos aos revisores reduzem os envios repetitivos. Com o status das avaliações visível, a coordenação pode priorizar as pendências que precisam de intervenção.
  • Mais controle sobre as regras da avaliação. A comissão escolhe o número de revisores por trabalho, conta com suporte à avaliação às cegas e pode impedir que pareceristas avaliem os próprios trabalhos. Essas configurações ajudam a aplicar o processo definido no edital.
Diagnóstico double blind Veja onde o anonimato pode ficar exposto Responda a 12 perguntas sobre a operação do congresso e identifique os pontos que precisam de atenção. Fazer o diagnóstico →

Quando o congresso adota avaliação às cegas, o anonimato também precisa ser conferido no fluxo de trabalho. Nomes em arquivos, mensagens aos pareceristas e planilhas de distribuição podem expor a autoria antes mesmo da leitura. O diagnóstico de double blind ajuda a comissão a revisar esses pontos.

O ganho continua depois da decisão. A integração com o Galoá Proceedings leva os trabalhos aprovados aos anais com DOI, para que a produção do congresso permaneça acessível e citável. Como Crossref Sponsoring Members desde 2015 e ORCID Institutional Members, a Galoá conecta essa publicação à infraestrutura de identificação de trabalhos e autores.

Essa continuidade já faz parte da operação do SLACAN, que usa a Galoá da chamada de trabalhos e da avaliação por pares à publicação dos anais.

A régua é da comissão, não de cada parecerista

A avaliação de trabalhos é onde o congresso exerce, na prática, o rigor que promete no edital. Critérios explícitos, rubrica com descritores e devolutiva obrigatória tornam o julgamento científico mais transparente e dão à comissão uma base para justificar cada decisão diante de quem submeteu.

A Galoá organiza a operação que sustenta esse trabalho: formulários de avaliação, distribuição, lembretes e acompanhamento das pendências. Com menos esforço para coordenar o processo, a comissão pode dedicar mais atenção aos pareceres e à qualidade do programa científico. Leve o modelo de rubrica deste guia para planejar a avaliação do seu congresso com nossa equipe.

Perguntas frequentes

Quais critérios usar para avaliar trabalhos científicos em um congresso?

Os mais usados são aderência ao escopo do evento, originalidade da contribuição, rigor metodológico, fundamentação dos resultados e clareza da escrita. O conjunto certo depende da modalidade: um resumo simples não sustenta os mesmos critérios de um trabalho completo. O essencial é que os critérios sejam definidos e publicados antes de a chamada abrir, e que o formulário do parecerista siga exatamente esses critérios.

Por que os pareceristas discordam tanto entre si?

Avaliar envolve julgamento, mesmo quando há critérios explícitos. No experimento do NeurIPS 2014, os pareceristas receberam critérios e uma escala com descritores, e ainda assim metade da variação das notas foi estimada como subjetiva. A rubrica oferece uma referência comum para avaliar e justificar o parecer; cabe à comissão examinar as divergências e aplicar a regra de decisão.

Quantos pareceristas por trabalho?

A prática comum em congressos é ter pelo menos dois pareceres independentes por trabalho, com um terceiro avaliador ou um membro da comissão como desempate quando as notas divergem muito. Mais importante que o número é a independência entre os pareceres e uma regra de decisão definida antes, para a nota de corte não virar improviso.

O autor deve receber a devolutiva da avaliação?

Sim. O parecer é a única resposta científica que a maioria dos autores recebe do evento, e a devolutiva sustenta a legitimidade da decisão, inclusive das recusas. Um formulário com campo de comentário obrigatório por critério garante que todo autor receba justificativa, não apenas uma nota.

Organize a avaliação do seu congresso com a Galoá

Leve os critérios, as áreas e os prazos do seu congresso para uma conversa com nossa equipe. Veja como reduzir a distribuição manual, automatizar lembretes e acompanhar pendências em um único fluxo.

Conhecer a plataforma

Referências

  1. Bornmann, L.; Mutz, R.; Daniel, H.-D. (2010). A Reliability-Generalization Study of Journal Peer Reviews: A Multilevel Meta-Analysis of Inter-Rater Reliability and Its Determinants. PLOS ONE. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0014331
  2. Cortes, C.; Lawrence, N. D. (2021). Inconsistency in Conference Peer Review: Revisiting the 2014 NeurIPS Experiment. arXiv. https://doi.org/10.48550/arXiv.2109.09774
  3. Bruce, R.; Chauvin, A.; Trinquart, L.; Ravaud, P.; Boutron, I. (2016). Impact of interventions to improve the quality of peer review of biomedical journals: a systematic review and meta-analysis. BMC Medicine. https://doi.org/10.1186/s12916-016-0631-5
  4. Superchi, C.; González, J. A.; Solà, I.; Cobo, E.; Hren, D.; Boutron, I. (2019). Tools used to assess the quality of peer review reports: a methodological systematic review. BMC Medical Research Methodology. https://doi.org/10.1186/s12874-019-0688-x
  5. COPE Council (2013). Ethical guidelines for peer reviewers. Committee on Publication Ethics. https://doi.org/10.24318/cope.2019.1.9